segunda-feira, 28 de novembro de 2011

PORQUE REFLETIR É PRECISO ...

Profa.  Lia M. Leal

As pessoas, quanto mais conhecem, mais produzem saberes, mais conhecem a si mesmas. ( William Sanches)

Ser reflexivo, em especial sob o ponto de vista pedagógico, é condição sine qua non para a manutenção da atividade docente. Como evoluir intelectualmente sem refletir sobre as condições que permeiam nossas atividades acadêmicas? Como sustentar o “experimentalismo”, que está no cerne da questão científica, sem refletir?  Como formar cidadãos conscientes sem o questionamento inerente à condição da docência?

Questões e questões podem ser apresentadas para sustentar o conceito de reflexão como processo básico de produção do conhecimento humano que, aliás, só pôde ser construído pela percepção que nossos ancestrais, “homo sapiens”, tiveram ao “refletir” sobre o universo que os cercava e como poderiam nomeá-lo e transformá-lo.

A palavra de ordem na sociedade contemporânea é mudança e apresenta-se como ponto de partida gerador das discussões pertinentes ao tema proposto nesta atividade. Os questionamentos apresentados na área da educação: Como construir conhecimento? Como respeitar a pluralidade de opiniões e situações? Como nos transformarmos e formarmos novas opiniões em nossa prática docente? têm como pressuposto determinante para todo e qualquer tipo de avanço científico, desde o início dos tempos, que a produção do conhecimento está ligada, antes de mais nada,  à  consideração do universo das “possibilidades” que surgem cotidianamente em nosso “fazer” prático-pedagógico.

Para criar este “saber” acadêmico, é necessário experimentar, mudar conceitos, valores e olhares sobre as coisas. Neste contexto, o professor reflexivo apresenta-se como fundamento essencial para que o processo de mudança institucionalize-se e cumpra seu papel junto a qualquer prática didática. 

Como afirma Libâneo(2003), importante referência na área da educação,  a compreensão do processo educativo “requer portas abertas para análises e integração de conceitos, captados de várias fontes – culturais, psicológicas, econômicas, antropológicas, simbólicas, na ótica da complexidade e da contradição, sem perder de vista a dimensão humanizadora das práticas educativas”.

A relação ensino-aprendizagem, em qualquer campo, envolve o enfrentamento de  entraves técnico-científicos, logística educacional, valorização profissional, entre outros tantos fatores.

Os autores Rodrigues e Sobrinho (2007) enfatizam a reflexão como condição fundamental para a compreensão da prática profissional inserida no desenvolvimento da relação ensino-aprendizagem. A articulação entre os vários “saberes” é também colocada no foco desta discussão, uma vez que o educando, independentemente da área do conhecimento, deve ser trabalhado em sua totalidade, com vistas à formação de um cidadão apto ao exercício de suas funções na sociedade.  

Sob esta ótica, o professor reflexivo desempenha importante papel, como citado no artigo de Richards (2003): O Professor Reflexivo implica levar em consideração várias maneiras de ensinar uma lição em particular; decidindo-se por qual dessas maneiras deve utilizar. Os professores geralmente consideram fatores como o nível de proficiência dos alunos, seus interesses, os objetivos do currículo e o tempo disponível para o ensino.

A figura do professor mediador que estabelece relações entre a experiência anteriormente adquirida pelo aluno e os conhecimentos compartilhados em aula, é fundamental dentro do processo ensino-aprendizagem e para que esta mediação efetivamente se concretize, a reflexão é condição exigida. Neste momento é pertinente citar Howard Gardner, mentor nos anos 80 da Teoria das Inteligências Múltiplas, quando afirma que “ as ações dos profissionais da educação devem levar em conta as habilidades dos educandos no sentido de buscar soluções adequadas aos seus problemas em seus respectivos “ambientes culturais”.

Neste momento recorro novamente à fala de Richards (2003) ao afirmar que os professores reflexivos têm consciência de que a maneira como ensinam é influenciada pelas crenças culturais que eles e seus alunos têm a respeito do papel da educação e das características dos bons professores e bons alunos. Esta preocupação também é referenciada no artigo A construção da identidade do professor como profissional reflexivo, através de Zeichner (1993), ao enfatizar que os professores devem, individualmente ou em conjunto, criticar  e desenvolver suas teorias  práticas, além de perceber quais as condições sociais  que modelam as suas experiências  de ensino.   

Este seria o cenário “ideal” para que o professor se tornasse verdadeiramente reflexivo. Sabemos que a realidade do universo docente, muitas vezes massificado e com baixa qualidade, não viabiliza a concretude desta “ação reflexiva”. As autoras do artigo assim o confirmam em sua conclusão:  No que se refere a problemas de ordem institucional, destaca-se a ausência de horários que permitam aos professores discutirem entre si; que possibilitem a troca de experiências do seu trabalho cotidiano escolar, permitindo a socialização das ideias e tomadas de decisão para a resolução de situações-problema. 

O desenvolvimento de competências didáticas e práticas torna-se essencial  no exercício da docência, particularmente no contexto atual do “mercado” docente, além, obviamente, de considerar a necessidade de efetivar esse processo como base, também, para a formação profissional do aluno. Em seu artigo, as autoras do artigo acima reforçam este posicionamento ao afirmar que os professores devem articular os saberes teóricos com os saberes práticos, por entender  que a teoria dá subsídios aos professores no enfrentamento das situações singulares de sala de aula, como também possibilita a re-elaboração de novas teorias, no que se refere à  análise dos contextos histórico-sociais que ocorrem na sua prática.

Por outro lado, não há como desconsiderar as questões que envolvem a tecnologia e o acesso às informações no mundo contemporâneo. Além das considerações anteriores, apresentam-se outras importantes indagações no contexto da atuação deste “novo professor”: Como ensinar (e aprender) neste cenário? Como estabelecer um pensamento crítico que ultrapasse as barreiras do saber meramente tecnológico, muitas vezes elevado à condição de “excelência” no ensino? Como trabalhar os chamados “múltiplos” saberes e adequá-los à práxis da relação ensino-aprendizagem? Como integrar todas essas necessidades à prática acadêmica, muitas vezes “sofrida” e, ainda assim, reunir condições para ser reflexivo?

Professor, aluno e o objeto de estudo formam a  relação “triádica” dentro da qual  condensa-se todo o processo interativo necessário à boa prática educacional. A formação continuada é fundamental para que o docente, em qualquer área, constitua-se como “agente” interativo no processo educacional e o capacita ao exercício da reflexão. Planejar e preparar aulas, por exemplo, são etapas essenciais na condução deste processo.
O perfil do professor reflexivo, apesar de “idealizado”, penso, só pode ser construído em etapas que a experiência docente impõe. Desenvolver as competências  do professor educador exige empenho, aprendizado constante e “parcerias” com a sociedade.

Gabriel Chalita, mentor das ideias transcritas no texto O papel do professor, expõe um cenário onde os professores, apesar de toda a tecnologia, ainda são, e provavelmente serão, o eixo central da relação ensino-aprendizagem. Destaca-se em sua análise, o exercício profissional da carreira docente como um processo no qual, acima de todos os métodos didáticos, há o “ser” formando “seres”, essência conceitual traduzida na observância das relações de afeto inerentes à formação e ao desenvolvimento humano.

Diante de tantos contrastes da vida moderna, das incoerências do mercado de trabalho e das nossas próprias fraquezas e deficiências, algumas vezes não exercemos, com a devida consciência, o papel de professores reflexivos. Talvez mais do que “fechar” a questão proposta nesta tarefa com uma única e idealizada resposta, seja o momento de aproveitar a oportunidade enquanto, também alunos, para refletir sobre o nosso posicionamento diante das dificuldades docentes que se apresentam cotidianamente. Chalita ratifica esta posição ao afirmar que “ ninguém se torna um professor perfeito, aliás aquele que se acha perfeito, e portanto nada mais tem a aprender, acaba se transformando num grande risco para a comunidade educativa”.

Minha experiência docente na área da Comunicação Social, sempre exigiu o exercício constante da reflexão e da crítica, condição fundamental para a formação dos alunos de jornalismo e publicidade.  A prática consciente da docência reflexiva auxilia, indiscutivelmente, na formação de cidadãos igualmente conscientes. Esta tarefa é fácil? Certamente, não. Há variáveis altamente influentes neste processo.  Família, estado, sociedade e escola são setores que também necessitam de integração. 

Ao professor, às vezes no exercício solitário de seu ofício, cabe lembrar que, em início ou fim de carreira, parafraseando Fernando Pessoa, Refletir é preciso, sempre!