Profa. Lia M. Leal
As pessoas, quanto mais
conhecem, mais produzem saberes, mais conhecem a si mesmas. (
William Sanches)
Ser reflexivo, em especial sob o ponto de vista
pedagógico, é condição sine qua non
para a manutenção da atividade docente. Como evoluir intelectualmente sem
refletir sobre as condições que permeiam nossas atividades acadêmicas? Como
sustentar o “experimentalismo”, que está no cerne da questão científica, sem
refletir? Como formar cidadãos
conscientes sem o questionamento inerente à condição da docência?
Questões e questões podem ser apresentadas para
sustentar o conceito de reflexão como processo básico de produção do conhecimento
humano que, aliás, só pôde ser construído pela percepção que nossos ancestrais,
“homo sapiens”, tiveram ao “refletir” sobre o universo que os cercava e como
poderiam nomeá-lo e transformá-lo.
A palavra de ordem na sociedade contemporânea é mudança e apresenta-se como ponto de
partida gerador das discussões pertinentes ao tema proposto nesta atividade. Os
questionamentos apresentados na área da educação: Como construir conhecimento?
Como respeitar a pluralidade de opiniões e situações? Como nos transformarmos e
formarmos novas opiniões em nossa prática docente? têm como pressuposto
determinante para todo e qualquer tipo de avanço científico, desde o início dos
tempos, que a produção do conhecimento está ligada, antes de mais nada, à
consideração do universo das “possibilidades” que surgem cotidianamente
em nosso “fazer” prático-pedagógico.
Para criar este
“saber” acadêmico, é necessário experimentar,
mudar conceitos, valores e olhares sobre as coisas. Neste contexto, o
professor reflexivo apresenta-se
como fundamento essencial para que o processo de mudança institucionalize-se e
cumpra seu papel junto a qualquer prática didática.
Como afirma Libâneo(2003),
importante referência na área da educação, a compreensão do processo educativo “requer
portas abertas para análises e integração de conceitos, captados de várias
fontes – culturais, psicológicas, econômicas, antropológicas, simbólicas, na
ótica da complexidade e da contradição, sem perder de vista a dimensão
humanizadora das práticas educativas”.
A relação ensino-aprendizagem, em qualquer campo, envolve
o enfrentamento de entraves
técnico-científicos, logística educacional, valorização profissional, entre
outros tantos fatores.
Os autores Rodrigues e Sobrinho (2007) enfatizam a reflexão como condição fundamental para
a compreensão da prática profissional inserida no desenvolvimento da relação
ensino-aprendizagem. A articulação entre os vários “saberes” é também colocada
no foco desta discussão, uma vez que o educando, independentemente da área do
conhecimento, deve ser trabalhado em sua totalidade,
com vistas à formação de um cidadão apto ao exercício de suas funções na
sociedade.
Sob esta ótica, o professor reflexivo desempenha
importante papel, como citado no artigo de Richards (2003): O Professor Reflexivo implica levar em
consideração várias maneiras de ensinar uma lição em particular; decidindo-se
por qual dessas maneiras deve utilizar. Os professores geralmente consideram
fatores como o nível de proficiência dos alunos, seus interesses, os objetivos
do currículo e o tempo disponível para o ensino.
A figura do professor
mediador que estabelece relações entre a experiência anteriormente
adquirida pelo aluno e os conhecimentos compartilhados em aula, é fundamental
dentro do processo ensino-aprendizagem e para que esta mediação efetivamente se
concretize, a reflexão é condição
exigida. Neste momento é pertinente citar Howard Gardner, mentor nos anos 80 da
Teoria das Inteligências Múltiplas, quando afirma que “ as ações dos profissionais da educação devem levar em conta as
habilidades dos educandos no sentido de buscar
soluções adequadas aos seus problemas em seus respectivos “ambientes
culturais”.
Neste
momento recorro novamente à fala de Richards (2003) ao afirmar que os professores reflexivos
têm consciência de que a maneira
como ensinam é influenciada pelas crenças culturais que eles e seus alunos têm
a respeito do papel da educação e das características dos bons professores e
bons alunos. Esta preocupação também é referenciada no artigo A construção da identidade do
professor como profissional reflexivo, através de
Zeichner (1993), ao enfatizar que os professores devem, individualmente ou em conjunto, criticar e desenvolver suas teorias práticas, além de
perceber quais as condições sociais
que modelam as suas experiências de ensino.
Este
seria o cenário “ideal” para que o professor se tornasse verdadeiramente
reflexivo. Sabemos que a realidade do universo docente, muitas vezes
massificado e com baixa qualidade, não viabiliza a concretude desta “ação
reflexiva”. As autoras do artigo assim o confirmam em sua conclusão: No que
se refere a problemas de ordem institucional, destaca-se a ausência de horários
que permitam aos professores discutirem entre si; que possibilitem a troca de
experiências do seu trabalho cotidiano escolar, permitindo a socialização das
ideias e tomadas de decisão para a resolução de situações-problema.
O
desenvolvimento de competências didáticas e práticas torna-se essencial no exercício da docência, particularmente no
contexto atual do “mercado” docente, além, obviamente, de considerar a
necessidade de efetivar esse processo como base, também, para a formação
profissional do aluno. Em seu artigo, as autoras do artigo acima reforçam este
posicionamento ao afirmar que os
professores devem articular os saberes teóricos com os saberes práticos, por
entender que a teoria dá subsídios aos professores no enfrentamento
das situações singulares de sala de aula, como também possibilita a re-elaboração
de novas teorias, no que se refere à análise dos contextos
histórico-sociais que ocorrem na sua prática.
Por outro lado, não há como desconsiderar as questões que
envolvem a tecnologia e o acesso às informações no mundo contemporâneo. Além
das considerações anteriores, apresentam-se outras importantes indagações no
contexto da atuação deste “novo professor”: Como ensinar (e aprender) neste
cenário? Como estabelecer um pensamento crítico que ultrapasse as barreiras do
saber meramente tecnológico, muitas vezes elevado à condição de “excelência” no
ensino? Como trabalhar os chamados “múltiplos” saberes e adequá-los à práxis da relação ensino-aprendizagem?
Como integrar todas essas necessidades à prática acadêmica, muitas vezes
“sofrida” e, ainda assim, reunir condições para ser reflexivo?
Professor,
aluno e o objeto de estudo formam a relação “triádica” dentro da qual condensa-se todo o processo interativo
necessário à boa prática educacional. A formação continuada é fundamental para
que o docente, em qualquer área, constitua-se como “agente” interativo no
processo educacional e o capacita ao exercício da reflexão. Planejar e preparar aulas, por exemplo, são etapas
essenciais na condução deste processo.
O perfil do professor reflexivo, apesar de “idealizado”, penso, só pode ser construído em
etapas que a experiência docente impõe. Desenvolver as competências do professor educador exige empenho,
aprendizado constante e “parcerias” com a sociedade.
Gabriel Chalita, mentor das ideias transcritas no texto O papel do professor, expõe um cenário
onde os professores, apesar de toda a tecnologia, ainda são, e provavelmente
serão, o eixo central da relação ensino-aprendizagem. Destaca-se em sua
análise, o exercício profissional da carreira docente como um processo no qual,
acima de todos os métodos didáticos, há o “ser” formando “seres”, essência conceitual
traduzida na observância das relações de afeto
inerentes à formação e ao desenvolvimento humano.
Diante de tantos contrastes da vida moderna, das
incoerências do mercado de trabalho e das nossas próprias fraquezas e
deficiências, algumas vezes não exercemos, com a devida consciência, o papel de
professores reflexivos. Talvez mais
do que “fechar” a questão proposta nesta tarefa com uma única e idealizada
resposta, seja o momento de aproveitar a oportunidade enquanto, também alunos,
para refletir sobre o nosso posicionamento diante das dificuldades docentes que
se apresentam cotidianamente. Chalita ratifica esta posição ao afirmar que “ ninguém se torna um professor perfeito,
aliás aquele que se acha perfeito, e portanto nada mais tem a aprender, acaba
se transformando num grande risco para a comunidade educativa”.
Minha experiência docente na área da Comunicação Social,
sempre exigiu o exercício constante da reflexão
e da crítica, condição fundamental
para a formação dos alunos de jornalismo e publicidade. A prática consciente da docência reflexiva auxilia, indiscutivelmente,
na formação de cidadãos igualmente conscientes. Esta tarefa é fácil?
Certamente, não. Há variáveis altamente influentes neste processo. Família, estado, sociedade e escola são setores
que também necessitam de integração.
Ao professor, às vezes no exercício solitário de seu
ofício, cabe lembrar que, em início ou fim de carreira, parafraseando Fernando
Pessoa, Refletir é preciso, sempre!