Olhava para a tela em branco e tentava escrever. Tinha visto diversos fatos inusitados durante o dia, e achava que tinha que relatar da forma que se acostumara: escreveria um conto. Lembrava de seu passado, primeiro como estagiário na redação, depois como repórter de campo e por fim como correspondente internacional cobrindo eventos e guerras em terras distantes. Sempre tivera em seu íntimo a saudade de sua terra distante, com seus defeitos e qualidades únicos. Voltara direto para sua aposentadoria e sua casa construída que ele nunca vira. Se assentou em uma calma cidade do litoral e agora se divertia contando causos para um jornal da capital.
Sentou-se em frente ao computador e ensaiou uma ou duas frases. Não viu como continuar, apagou-as, reescreveu-as. Pensava nas risadas que queria causar em seu distinto público da metrópole, nas reações inflamadas que as pessoas teriam se indignando com os inverossímeis acontecimentos de seu lugarejo a beira-mar. Não mais acostumadas à intimidade exagerada, aos arroubos de personalidade que causavam grandes comoções em pequenos povoados, tão raros para as pessoas de grandes centros e tão comuns para quem se locomove por essa grande extensão de terra que constitui o país.
Levantou-se, tomou um café, olhou pela janela, contemplou a praça central, o mar...
Tanta coisa havia acontecido enquanto ele tinha ido comprar pão, tantos paralelos possíveis com a situação política nacional e mundial, tantas lições esquecidas pelos moradores impessoais de condomínios... como descrever? Já havia feito tantas vezes, mas sempre se sentia como se fosse a primeira vez. Será que um dia perderia esse sentimento? Será que se sentiria tão seguro que escreveria sem pensar no julgamento dos leitores? Isso seria bom ou ruim?
Sacudiu a cabeça para espantar aqueles sentimentos. Agora era ele e o editor de textos. Ninguém mais.
Espreguiçou-se na cadeira, alongou suas mãos e começou o serviço. Seus sonhos haviam sido realizados graças àqueles gestos, ainda nas antigas máquinas de escrever, há tantos anos atrás. A pessoa a quem ele era mais grato em sua vida realmente era a professora que o apresentara às letras, ainda em tenra idade. Lera tantas matérias de todo tipo, jornalistas presentes em acontecimentos grandiosos que alteravam o mundo inteiro, tão distantes de sua pequena cidadezinha interiorana...
Agora era sua vez de inspirar novos leitores, de mostrar outros lugares através de suas palavras.
Com um sorriso discreto, começou a escrever.