- Ei mãe, quero ser jornalista!
Ele dizia isso desde tenra idade, para graça de alguns e descontentamento de outros em sua família.
Sua mãe, que tinha perdido amigos na ditadura, preferia que ele fosse médico. Ou engenheiro. Ou professor. Qualquer coisa menos jornalista. Um futuro respeitável, quem sabe, sem rabo preso, sem arriscar a vida... ah, a preocupação.
Seu pai queria que ele fosse rico. Trabalhara a vida inteira, não tivera chance de estudar e não sem uma ponta de orgulho conseguira pagar faculdade para todos os filhos. Mas queria uma retribuição, óbvio. Quando se aposentasse, o que não demoraria, queria que os filhos o auxiliassem como ele os havia auxiliado. Um foi ser médico, outra estudava para ser veterinária, e o outro é que tinha saído diferente. Os mais novos sempre dão problema.
Então, ao chegar na idade de prestar seu vestibular, ele escolheu ser jornalista. Passou em primeiro, logo ele que nunca fora tão chegado em estudar, tamanha era sua empolgação. Fez seu curso como se estivesse flutuando em nuvens, aprendia cada coisa nova com assombro, terminou seus anos de estudante com uma empolgação que os professores jamais tinham visto.
Ao voltar a sua cidade, continuou com seu trabalho que ele tanto amava fazer. Feliz e realizado, embora ainda não no topo [que ele almejava, mas sabia ser uma consequência vindoura].
Certo dia, foi abordado por uma senhora. Ela dizia que o tráfico havia dominado seu bairro, nem a polícia entrava lá mais, a prefeitura solenemente ignorava seus apelos e a mídia pouco fazia por ela. Entrou na história de imediato, para ajudá-la e também pelo cheiro de matéria quente no ar. Ao começar as sondagens, recebeu uma ameaça anônima. Nunca havia sido alvo de algo assim, mas isso não desanimou. Seu chefe veio falar com ele nas primeiras semanas de investigação, para mudar sua opinião acerca do assunto. Disse que se insistisse seria obrigado a demiti-lo, o que seria uma pena, sua carreira estava deslanchando, e ele tinha tanto futuro pela frente...
Ele pôs seu cargo à disposição e continuou na matéria. A ameaça foi concretizada após uma tentativa de entrevista com o prefeito, que tinha ligações óbvias com o manda-chuva do tráfico de entorpecentes local. Mesmo sem emprego, lembrava-se do rosto da velha senhora a lhe pedir ajuda, e seguiu seu intento. Uma nova ameaça foi feita, dessa vez envolvendo seus parentes. Pela primeira e última vez, questionou a si mesmo se valeria a pena.
Ao final de tudo, com a história pronta, não arranjou quem publicasse. Criou um blog e fez a denúncia, espalhando também em redes sociais. Logo a repercussão cresceu, sites de notícia começaram a entrar em contato e alguns repórteres de outras regiões [inclusive seu velho diretor na matriz da emissora] pressionaram a publicação em larga escala do assunto. Tornou-se [mais] respeitado, ganhou prêmios e foi ser correspondente internacional. E ainda assim, nada mais o comovia tanto quanto relembrar da senhora lhe sorrindo, com a matéria em mãos.